Se você pudesse ver meu rosto agora, ia ver um sorriso. As sobrancelhas levemente levantadas, o rosto um pouquinho inclinado, a cabeça balançando. Isso sou eu sendo simpático. Deu pra reparar? É triste, mas eu precisei aprender a ser simpático. No interior do Paraná, onde eu nasci, sorrir é sinal de fraqueza e simpatia é quando você não joga água fervendo na pessoa que passa na frente da sua janela. Foi só na faculdade que eu descobri que as pessoas podem ser legais. Um dia decidi ser assim também e fui, gesto por gesto, emulando o comportamento de uma pessoa simpática. Funcionou! Fiz amigos ali que ficaram pelo resto da vida. Infelizmente eu me acomodei e, depois dali, se eu fiz três amigos foi muito. -- Os amigos vão envelhecendo, casando, tendo filhos e os fins de semana que eram sempre lotados de coisa pra fazer, em que eu tinha que recusar convites por falta de tempo, começaram a ficar murchinhos. Como eu sou murchinho também, não liguei muito. Amo passar tempo sozinho....
Lindinha era a cara da ansiedade desde pequena. Quieta demais, afobada pra tudo, desengonçada como uma bicicleta com os pneus murchos. Trabalhava desde pequena e nunca lhe faltou trabalho -- não porque fosse muito boa, mas porque evitar limpar a própria casa é a prioridade de qualquer um que começa a ganhar um pouquinho de dinheiro. Desengonçada, ansiosa e calada, Lindinha limpava a casa alheia e empurrava a vida como podia. Obstruída da satisfação, como todo humano, começou a achar pouco. "Há de existir algo maior", sofreu Lindinha, e após meses de questionamento interior e sofrimento, ela encontrou a arte. -- Nenhum artista se encontra de primeira, mas Lindinha pegou fácil a capacidade de conduzir o pincel sobre o stêncil pré-fabricado, de contornar os detalhes com tinta preta, de escolher a frase certa para arrematar o espetáculo. Era um dom. Sua produção era uma série de gatinhos de chapéu brincando com novelos de lã, seguidos pela frase "Nada como um dia após o ou...