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Simpatia

Se você pudesse ver meu rosto agora, ia ver um sorriso. As sobrancelhas levemente levantadas, o rosto um pouquinho inclinado, a cabeça balançando. Isso sou eu sendo simpático.  Deu pra reparar? É triste, mas eu precisei aprender a ser simpático. No interior do Paraná, onde eu nasci, sorrir é sinal de fraqueza e simpatia é quando você não joga água fervendo na pessoa que passa na frente da sua janela. Foi só na faculdade que eu descobri que as pessoas podem ser legais. Um dia decidi ser assim também e fui, gesto por gesto, emulando o comportamento de uma pessoa simpática. Funcionou! Fiz amigos ali que ficaram pelo resto da vida. Infelizmente eu me acomodei e, depois dali, se eu fiz três amigos foi muito. -- Os amigos vão envelhecendo, casando, tendo filhos e os fins de semana que eram sempre lotados de coisa pra fazer, em que eu tinha que recusar convites por falta de tempo, começaram a ficar murchinhos.  Como eu sou murchinho também, não liguei muito. Amo passar tempo sozinho....
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Nascer do Sol em Divinópolis

Lindinha era a cara da ansiedade desde pequena. Quieta demais, afobada pra tudo, desengonçada como uma bicicleta com os pneus murchos. Trabalhava desde pequena e nunca lhe faltou trabalho -- não porque fosse muito boa, mas porque evitar limpar a própria casa é a prioridade de qualquer um que começa a ganhar um pouquinho de dinheiro. Desengonçada, ansiosa e calada, Lindinha limpava a casa alheia e empurrava a vida como podia. Obstruída da satisfação, como todo humano, começou a achar pouco.  "Há de existir algo maior", sofreu Lindinha, e após meses de questionamento interior e sofrimento, ela encontrou a arte.  -- Nenhum artista se encontra de primeira, mas Lindinha pegou fácil a capacidade de conduzir o pincel sobre o stêncil pré-fabricado, de contornar os detalhes com tinta preta, de escolher a frase certa para arrematar o espetáculo. Era um dom. Sua produção era uma série de gatinhos de chapéu brincando com novelos de lã, seguidos pela frase "Nada como um dia após o ou...

Maratona da Bunda Limpa

Ouço de muitas pessoas que o motivo pelo qual elas fazem atividades físicas é conseguir limpar a própria bunda na velhice. Eu não tô longe. Cada abdominal que eu faço, penso "isso sou eu conseguindo levantar da cama aos 85 anos sem ajuda". E sim, tem verdade nisso, mas vamos ser sinceros - as razões vão além. Meus motivos de fazer atividade física são divididos da seguinte forma:  - 12% pra ter saúde na velhice - 20% pra gastar uma energia que de outra forma seria investida no descaralhamento da minha cabeça - 60% pra tirar fotos em que meu braço parece grande, postar, receber um foguinho de alguém que suscite meu apetite sexual e depois não fazer nada a respeito porque eu sou recatado (jacu) - 8% para vingança De qualquer forma, se o objetivo de fazer exercícios agora é reduzir agruras na terceira idade, precisamos de tanto esforço assim? Eu realmente preciso fazer agachamento búlgaro só pra conseguir limpar a minha vindoura poupança?  Acho possível bolar um plano de treino ...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...

Adolescente e bobo

Tem coisas que a gente lê e não imagina que vão repercutir na gente pelo resto da vida. Justamente por não ter antecipado isso, não faço ideia de em qual livro vi esse relato clínico que eu nunca esqueci. Um homem, divorciado e por volta dos seus cinquenta anos, procurava um psicólogo porque estava tendo sentimentos muito estranhos para ele. Depois de muito tempo sem uma conexão afetiva, ele começou a se envolver com uma mulher que conheceu em seu trabalho.  "Você sente que está obcecado por ela?", perguntava o psicólogo, "ou que os pensamentos a respeito dessa relação estão lhe botando em perigo?" "Não, é só uma paixão normal. Eu penso nela durante o dia, dou um sorriso bobo quando leio uma mensagem, imagino ela comigo antes de ir dormir..." "E isso é um problema pra você?" "Eu tenho cinquenta anos! Eu estou me sentindo como um adolescente. Eu já passei por relacionamentos que deveriam ter me ensinado a não cair nessa história mais uma vez....

Você está sozinho sim

 Sabe o que eu queria? Estar parado num semáforo com um cartaz escrito "Setembro amarelo - você não está sozinho", distribuindo Sonho de Valsa, acreditando sinceramente que alguém vai pular menos da ponte por conta disso. Mas eu saberia que um Sonho de Valsa não mantém ninguém vivo por muito tempo. Que a pessoa com o papelzinho nas mãos está sozinha sim, não necessariamente por falta de com quem conversar, mas por estar profundamente mergulhada na sensação de que não adianta, não merece ou não saberia usar desse recurso.  Mas a pessoa está sozinha sim, e me parece covarde tentar consolar alguém com uma mentira.  Você sabe o quanto está, de fato, sozinho quando se vê sem amigos por perto numa noite particularmente difícil em que as distrações não são potentes o suficiente para calar um pensamento cruel.  Você sabe o quanto, mesmo com uma noite de sono e a promessa de um novo dia, acordar pode parecer uma condenação a carregar o fardo de viver por mais vinte e quatro h...

Balada da Arrasada

 Precisamos fazer uma distinção muito importante. Doido é doido, louco é louco, e um é muito diferente do outro. O louco é o maluco, esses estão na mesma categoria. Eles tem transtorno, eles tem diagnóstico e eles tem tratamento. Os loucos merecem respeito e esse texto não é sobre eles. Agora, o doido é outra história. O doido é aquela pessoa que, em posse de plenas faculdades mentais, toma as decisões mais estapafúrdias possíveis: larga relacionamentos estáveis em busca de emoção, puxa briga com quem discorda dela, torce pro Paraná Clube... Inclusive acho que uma pessoa pode pertencer às duas equipes. Eu, por exemplo, sou um pouco louco (porque tenho laudo), mas também sou doido (acredito na melhora do humanidade pela educação). -- O único tipo de texto que eu não enrolo pra escrever é obituário. É impressionante como a morte me motiva. Dessa vez quem vestiu o paletó de MDF foi a Angela Ro Ro. Essa sim, um belo exemplar de doida.  Eu fico triste por ela, sim, mas fico triste ...